Em 1962, o jovem Francisco chega à época de prestar vestibular e isto significava sair de São Luís. Chico deseja ir estudar em São Paulo. Depois de passar por Belém, Brasília, Rio de Janeiro, chega à capital paulista.
Alguns cursinhos e já conhecido como Maranhão entra na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, ano de 1964. Nessa escola, que coincidentemente ficava na rua de seu próprio apelido, Rua Maranhão nº 88, o jovem encontra um efervescente movimento criativo onde a presença de um violão sempre era motivo para se ouvir novas canções, novas ideias artísticas. A primeira impressão que Maranhão teve, relata ele agora, era de que se reproduzia “o mesmo ambiente dos tempos de sua casa, quando ainda criança, alí estava o palco, os ensaios, as festinhas de sua infância”. A FAU instalada numa bela casa antiga estilo art nouveau, tinha o grêmio acadêmico estudantil no porão e lá, conta Maranhão, “inventou-se a despretensiosa entidade etílica-política-recreativa, o Sambafo”. Esta entidade, continua, “eram reuniões que fazíamos nos fins de tardes regadas sempre com samba e um certo ‘bafo-de-onça’ e lá pelas cinco horas da tarde, quando a atividade estudantil findava, a gente ia chegando aos poucos e entrávamos no porão aos montes e aí o samba começava. A coisa não ia longe, era rápida, mas tudo muito denso, e todo mundo podia participar. Sem menos se esperar apareciam por lá cantores como Taiguara, o violonista Toquinho, o compositor João do Vale, Renato Teixeira, gentes de teatro, jornalistas, curiosos etc… até umas poucas meninas, nossas musas”.
A FAU, estava muito perto da esquina da Universidade Mackiense. Logo mais abaixo está a Rua Maria Antônia, onde havia a Faculdade de Filosofia da USP, quer dizer, “um núcleo universitário portentoso na época”. Esquina com a Rua Maria Antônia está a Rua Dr. Vila Nova. Nesta, havia a Quitanda, uma garagem onde foi improvisado um pequeno bar onde seu maior sucesso era uma batida de agrião. Relembra Maranhão que “ali era um centro de reunião onde tudo podia acontecer no que diz respeito a cantoria e batucadas”. Era um território livre para novas criações musicais, de várias procedências. Neste burburinho, o conhecimento de música trazido de casa em São Luís, das execuções dos choros, xotes e baiões, de Ernesto Nazaré, de Chiquinha Gonzaga, de Luis Gonzaga ao piano de sua mãe, se ampliou bastante principalmente porque conheceu pessoalmente vários compositores da “antiga” em plena atividade, como Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho, Esmaell Silva, cujas canções tinham presença garantida nesses espaços: “Se você jurar”, “Antonico”, etc…. E assim nessa seqüência, também Noel Rosa, Pixinguinha, Sinhô, Assis Valente, Lamartine, passaram a fazer parte de seu universo sonoro mais amiúde.
De certa vez, num desses fins de tardes, por volta de setembro de 64, o violão aproximara dois colegas, o Carioca, que começava a ser conhecido como Chico Buarque e o Maranhão. Veio daí o convite para Maranhão participar com o violão na peça “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, montada pelo TUCA. Por ali mesmo, no porão da FAU ou em sua casa, Buarque passava as músicas para Maranhão. Esta peça, que arrebata os prêmios de crítica e público do IV Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, leva Maranhão pela primeira vez à Europa e, em Paris, tomando conhecimento do personagem Cyranô de Berjerac, lhe veio a idéia de compor a música “Cirano”, apontada por Paulo Vanzolini como uma insuperável obra da Música Popular Brasileira. É desta aproximação estudantil com Chico Buarque que Maranhão estreita sua relação com o colega, passa a freqüentar sua residência e conhece sua família. Ali participou de várias reuniões com violão, ampliando seu conhecimento musical conhecendo renomados intelectuais da cena cultural paulistana. Alguns se tornaram seus melhores amigos como Luis D´Horta, seu grande incentivador. Este lhe foi apresentado pelo Professor Sérgio Buarque com uma fantástica premonição: – “Vocês serão sempre grandes amigos”. E assim aconteceu. Num desses encontros Maranhão conheceu também Vinícius de Morais que tempos depois lhe proporcionaria uma grande emoção: no seu próprio apartamento, o poeta lhe mostrou uma fita “meio secreta”, recém-chegada do Chile. Nela estava a voz de Ferreira Gullar declamando o “Poema Sujo”.
