Volta a São Luís

O curso da vida afastara os amigos em São Paulo e Maranhão “arrumou a mala” para a cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. Na sua cabeça um pensamento: se a música não lhe acolhesse bem, tentaria a arquitetura, já estava formado e conhecia um pouquinho do mêtier. Sozinho, no Rio a coisa ficou mais difícil. Resolveu então bater à porta do escritório de arquitetura do Dr. Oscar Niemeyer. Foi atendido gentilmente e lá trabalhou por dois anos. Com isto, parecia que o tempo no Sul estava findado. Então pensou em sua terra: “era uma coisa muito romântica voltar a morar em São Luís” mas, no fundo, este sempre fôra seu íntimo desejo, como atesta suas próprias palavras: “… a felicidade consiste em ser um artista morando em São Luís…, fora… parece que não tem graça.”

Quando os festivais de música popular viraram moda em todo o país, Chico Maranhão sempre era convidado a participar desses eventos. Nessas ocasiões procurava incentivar as gerações mais novas e observar como andava o ambiente da música, principalmente como isto se relacionava com as manifestações populares como o Boi o Tambor de crioula, etc…. De tudo que havia, o novo era o Laborarte – Laboratório de expressões artísticas – onde um grupo desenvolvia pesquisas com a música de raiz popular. Despontava também um turma de cantores/compositores composta pelos remanescentes do coral da Universidade Federal do Maranhão. Estava longe a lembrança dos boêmios, das serestas, do bandolim de Canhoto, do violão de Custodinho, do pandeiro de Mascote, da dupla “Ponto e virgula” que cantava na rádio.

Por volta de 1972, começava em São Luís a realização de um sonho antigo: organizar estas atividades culturais um amplo projeto para o Estado. Estrutura-se a Fundação Cultural do Maranhão e coincidentemente Maranhão volta para São Luís e se engaja neste contexto.

Ao chegar, o que achou de melhor para fazer foi reabsorver da maneira mais completa possível, suas raízes, resgatar suas origens, a base de seu canto. E isto significava rever o boi, o pela-porco, os aboios dos vaqueiros de sua infância, o tambor de crioula em especial. E por aí foi.

Em 1974, idealizou e realizou o “Primeiro Festival de Compositores” com a intenção de avaliar a quantidade e a qualidade da produção existente. A conclusão foi óbvia: as influências se misturavam muito e os apelos comerciais levavam absurda vantagem. Certo tempo depois, no final da década de 1980, simultaneamente à sua produção como compositor, resolveu montar um grupo de tambor de crioula que fosse o mais autêntico possível. Um “tambor de promessa” com toda sua tradicional liturgia: a “Turma do Xiquinho”. O projeto mudara a visão do Tambor de Crioula na cidade. Esse projeto, mais tarde, viera a dar suporte a um outro de significativa revelância a “Ópera Boi o Sonho de Catirina”, um espetáculo operístico que unia a criação popular com a erudita. Foi encenado, em 1995, no Teatro Artur Azevedo. Segundo o artista, fechava-se um ciclo importante na sua obra e resolveu “dar um tempo” e se dedicar a estudar a arquitetura dos sobrados da sua cidade – um antigo desejo. Defendeu tese de mestrado na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, pesquisando o conceito de urbanidade aplicado ao sobrado de São Luís. Esta dissertação que se chamou “Urbanidade do Sobrado” gerou um livro publicado pela editora Hucitec, São Paulo, lançado em outubro de 2006. O livro contém um cd encartado com duas músicas do autor, chamadas “Sobrado” e “Sobrados e trapiches” sobre o tema de estudo. Hoje, Chico Maranhão continua residindo em São Luís, produzindo, compondo, cantando pelo Brasil a fora.