Nascido em um sobrado tradicional de São Luís, capital do Estado do Maranhão, cidade reconhecidamente marcada por uma arquitetura colonial singular e um folclore de requintado bom gosto, o menino Chico teve uma infância simples mas envolvida desde os primeiros passos com as manifestações populares de sua terra. É que sua mãe, professora de jardins da infância, que sempre estimulou a educação das crianças voltada para as artes, alfabetizava valorizando os motivos das manifestações populares e desde cedo então incentivou o filho aos festejos juninos, aos palcos, aos recitais, às atividades do canto, da declamação, da dança… Assim, Chico Maranhão teve um contato diferenciado com o Bumba-meu-boi, com o Tambor de Crioula, com as quadrilhas juninas, com os pastorais, no tempo em que estas manifestações ainda se caracterizavam por uma dimensão artístico-espiritual-comunitária, e que com certeza influenciariam mais tarde a obra deste compositor. Isto não era muito comum aos meninos do seu tempo. Os costumes maranhenses desta época discriminavam sobremaneira essas manifestações populares. A primeira vez que o artista se recorda que pisou num palco foi participando de uma dessas atividades no jardim da infância Antônio Lobo, onde se alfabetizava. Devia ser um arraial onde o pequeno artista cantou uma canção do cancioneiro brasileiro intitulada “Chuá… Chuá” (de Pedro de Sá Pereira e Ary Pavão). O personagem que representava era um caboclo brasileiro, vestido com uma camisa xadrez, uma calça com a perna um pouco arregaçada e portava um chapéu de palha. Esta apresentação foi no palco do Teatro Arthur Azevedo, teatro municipal da cidade cujas dependências ficavam completamente lotadas com a presença entusiasmada do grande público: os familiares da criançada. A preparação dessas atividades se dava naturalmente no Jardim da infância, estendendo-se até sua casa, o que tornava a vida um “eterno teatro”. Outra vez, recorda o cantor, foi nada menos que num cordão de Bumba-boi criado e adaptado pela professora para a gurizada. Esse ano, lembra-se Maranhão, ele seria o amo do boi. Tarefa difícil! Mas prazeirosa, relembra. Cada ano era um novo menino, um novo cordão de crianças. Este Boi se chamava “O Brejeiro”, que muitos anos depois seria motivo de um trabalho de pesquisa deste compositor. Em outro momento, o artista fez o papel de São José junto com uma Nossa Senhora num quadro representando o nascimento de Cristo. Dos restos de memória, conta que havia uma casinha de palha com uma manjedoura, um burrinho e uma vaquinha bem grandes que até assustavam a menina, Nossa Senhora. Estava vestido com um camisolão marrom, uma barba preta e portava um cajado à mão. Isto devia ser no fim do ano, como de costume, um pastoral com vários quadros criados pela própria professora sua mãe. Esses momentos são recordados sempre com grande humor deixando a impressão de que foram vividos com intensa alegria.
